quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Questões ambientais

A ameaça de futuros apagões, além de mal colocada, flerta com um jeitinho terrorista de governar; não vai nos faltar energia, é a demanda por consumo que vai aumentar porque está no plano econômico aumentar a produção industrial. É o progresso, novamente, que leva a toque de caixa uma postura ambientalmente suicida. Em algum momento as fontes serão esgotadas, ou nós teremos um país saturado com os efeitos colaterais aceitos em nome de pretensos e intermináveis benefícios. Todos os rios estão sendo assoreados, as florestas estão sendo substituídas por pastagens, soja e bacias de inundação, todos os estoques pesqueiros estão sendo destruídos por excesso de barragens e agrotóxicos, as vazões estão sendo normalizadas à revelia da necessidade dos ecossistemas que elas variem, etc etc etc. As objeções são muitas, e são técnicas. Acho fundamental, inclusive, que biólogos, ambientalistas, líderes comunitários, cidadãos, enfim, que as pessoas que estão tentando questionar os métodos escolhidos para viabilizar o crescimento exponencialmente acelerado apresentem argumentos e linguagem técnica. Mas há algo que se perde nesse embate com a objetividade de engenheiro, que é a concessão ao pragmatismo como modelo de otimização da nossa existência, ou como diz um biólogo que eu amo, o que se perde é a poesia de floresteiros.
Vejo com desconfiança, por exemplo, o surgimento de medidas que tornem os ecossistemas sinônimo de “serviços ambientais”, como um tipo de commodity. Pretere-se, com isso, as críticas necessárias às nossas inclinações utilitárias, nossa repulsa por espaços “inúteis”, nossa versão meio alucinada da busca por “espaços vitais”, se me é permitido fazer tal provocação. Essa sustentabilidade de futuro empregado da Odebrecht reivindica e consolida nosso direito auto-conferido de ocupar tudo, substituir tudo, transformar qualquer espaço e autoritariamente realocar qualquer comunidade que obstrua o desenvolvimento glorioso da civilização. Há algo de errado em não destruir apenas aquilo que coincide de nos servir; o problema com o pragmatismo, mesmo o mais bem intencionado, o mais ecologicamente consciente, é que ele não dá conta de que as coisas vivam por si, que sejam neutras e sejam deixadas onde estão e como estão, simplesmente porque podem, e devem poder, existir.

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